quinta-feira, 15 de novembro de 2012

"Feet don't fail me now Take me to the finish line" (*)


Não sei que horas são.  Há muito que perdi a noção do tempo.  É triste ficarmos velhos.  É triste sermos abandonados à mercê do tempo, o mesmo tempo que nos consumiu e que por nós aguarda...  Estou sozinho.  Abandonado numa cama de hospital entregue a estranhos.  A cegueira impede-me de lhes ver a cara e mal os ouço.  Este cheiro a hospital aguça-nos a doença, faz-nos cair ainda mais.  De vez em quando abrem a janela, é como se abrissem o mundo.  Nunca pensei que os cheiros nos levassem tão longe.  À hora de almoço o cheiro a churrasco leva-me às memórias de infância.  Lembro-me da festa que era ir à Feira Popular com os meus pais, aquele ritual anual, andar nos carrosseis e comer sardinhas e frango assado...  Gostasse eu tanto de sardinhas como gosto do cheiro e deveria comer uma dúzia.  Acho que nunca houve nada que não gostasse e que cheirasse bem.  Exceto sardinhas... 
Gosto deste cheiro a rua em dias de chuva, aquele cheiro que fica quando o dia fica limpo.  Não limpo de nuvens, mas realmente limpo, o cheiro a um dia lavado, a fresco.  O cheiro da relva do jardim acabada de cortar, as correrias infantis atrás de uma bola, o comer bolos comprados a uma qualquer senhora, sem controle sanitário nem exigências fúteis, o chegar a casa com as calças verdes das defesas e das quedas...  
Lembro-me de quando era pequeno saber quem tinha entrado no prédio pelo cheiro a perfume que ficava nas escadas, as mesmas escadas de madeira que hoje já perderam parte do seu esplendor de outros tempos, um esplendor ajudado pela cera à moda antiga, aquele cheiro forte que ficava na garganta.
Por mais ou menos fútil que tenha sido esta nossa existência, acabamos sempre por levar qualquer coisa.  Pelo menos é o que dizem, embora confesso que ainda não sei para onde vou, ou sequer se haverá sítio para onde ir.  Sei que levo as memórias, as visões, os cheiros de uma vida.  As recordações de pessoas.  Posso não ter sido a melhor das pessoas, mas raios, ninguém o é.  Falamos demais, falamos demenos.  Amei como soube, odiei como quis.  Deixei coisas por dizer, por contar, levo comigo segredos e arrependimentos.  Haverá concerteza desculpas a pedir, mas é mesmo assim o balanço da vida
O tempo passa, escasseia.  O sino de uma qualquer igreja acabou de dar as horas, não sei quantas, não lhe contei os passos. Uma voz condescendente diz que alguém me trouxe flores. Flores levam-se aos mortos!  Não sabem esperar? Abutres não trazem flores!  Pergunto o que são, não lhe reconheço o cheiro.  São cravos, dizem-me.  Uma calma invade-me o espírito e fechando os olhos murmuro:  
-  Os meus cravos não cheiram assim...  E são de papel, não morrem como eu...

(*) Lana Del Rey in Born to Die