segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Much Ado About Nothing (*)

 Ser ou não ser, essa é a questão: será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna, ou tomar armas contra um mar de obstáculos e, enfrentando-os, vencer? (...) dormir, talvez sonhar — eis o problema: pois os sonhos que vierem nesse sono de morte, uma vez livres deste invólucro mortal, fazem cismar. Esse é o motivo que prolonga a desdita desta vida.

Estará concerteza o estimado leitor familiarizado com este texto.  Não digo que esteja no total, não espero tamanha demonstração de cultura literária, mas saberá concerteza ligar o ínicio à Tragédia de Hamlet de William Shakepeare.  Ora é aí, nessa frase, que jazem apenas as únicas dúvidas da vida.  Ser ou não ser.
Por acaso (e apenas por um acaso) o tema é ser, ou não, inconsequente.  Não pense o estimado leitor que me vou debruçar sobre a anarquia e a vontade de fazer o que nos dá na real gana.  Isso, meus amigos, não é ser inconsequente, é ser-se irresponsável, e isso per se já é estupidez.

Valerá a pena sofrer por antecipação? Valerá a pena não fazermos coisas porque na nossa cabeça elas vão ter um desfecho tal em que as consequências serão desastrosas e aterradoras?  Pois eu digo que não.  Não vale a pena dominarmos os nossos atos em função do que achamos que vai acontecer.  Embora não goste da frase por ter sido exageradamente usada desde que a ouvimos vezes sem conta no grande ecrã, Carpe Diem será a expressão mais correta neste caso.  Aproveitar o dia, o momento.
Porque raio havemos nós de sentir o chamamento divino de construir uma arca num dia de chuva?  Porquê este pessimismo, este medo?  Se chove, porque não agarrar no Borda d´Água e ler o que devemos plantar.  Porque não agarrar num guarda chuva e sair pela rua?  Aproveitemos a chuva como uma benesse e não como uma desgraça.  Porquê acharmos que estamos doentes se ainda ninguém nos disse do contrário? Porque este medo que temos de arriscar?  Houve alguém que escreveu que amar era arriscar.  Não é amar que é arriscar, é viver.  E perdoe-me o estimado leitor pela redundância, mas não haverá concerteza algo mais vivo que viver...

Os nossos atos, inconsequentes ou não, terão sempre uma consequência, mas não serão concerteza tão más como achamos e como prevemos.  Os nossos atos são apenas pequenas gotas neste mar imenso que é a vida.  E o estarmos vivos, como diria Lili Caneças, é o contrário de estar morto.  E estar morto, caro leitor, é a última consequência da vida.  Vale a pena termos medo?   

(*) peça de William Shakespeare





sexta-feira, 11 de outubro de 2013

"I'm watching, I'm watching you. A voyeur from a different point of view."(*)

Não querendo acabar como o gato que foi morto pela curiosidade, acredito que todos temos um pouco de voyeur.  Não o voyeurismo como parafilia.  Não, não é disso que se trata.  Acredito que já nos tempos pré-históricos o Homem queria saber se a lança do vizinho seria maior que a sua, ou se a sua fogueira aquecia mais.  Basicamente, saber se a galinha do vizinho seria realmente melhor que a dele.
Por muito que o estimado leitor queira esgrimir argumentos em contrário, continuamos a ser assim.  Está-nos no sangue, na maneira em que a vida nos fez.  Somos sempre comparados e comparáveis, e isso faz-nos querer saber de tudo, e de todos.  E o saber tudo implica querer entrar na privacidade das pessoas, saber o que fazem, como o fazem.  
Que farão as pessoas na sua solidão caseira? Entregar-se-ão a prazeres solitários?  Será da mesma forma?  O sexo será mais apaixonado?  Será selvagem e desenfreado como gostaríamos que fosse?
E se pudéssemos partilhar? E se tivéssemos alguém com quer partilhar ou falar sobre isto da mesma forma com que se partilha uma receita ou um truque para tirar nódoas difíceis? 
Aí é que a porca torce o rabo...  Dirá o estimado leitor que a nossa liberdade de querer saber termina na privacidade da outra pessoa.  Direi eu que a nossa liberdade, e a vontade que, quiça, a outra pessoa tem de partilhar, acabam precisamente onde o tabu começa.  Há coisas que simplesmente não se falam.  Há coisas que nem em casa se falam, quanto mais fora dela.  Por muito liberto ou libertino que o Homem queira ser, vai existir sempre o tabu, e isso, caro leitor, será sempre o peso que inclina a balança nem sempre para o lado que queremos.  
A não ser, claro, que tenhamos uma balança eletrónica.  Essa pesará sempre apenas o que quisermos colocar no prato.  Sem rótulos nem tabus.

(*) Elton John in Voyeur