quinta-feira, 15 de novembro de 2012

"Feet don't fail me now Take me to the finish line" (*)


Não sei que horas são.  Há muito que perdi a noção do tempo.  É triste ficarmos velhos.  É triste sermos abandonados à mercê do tempo, o mesmo tempo que nos consumiu e que por nós aguarda...  Estou sozinho.  Abandonado numa cama de hospital entregue a estranhos.  A cegueira impede-me de lhes ver a cara e mal os ouço.  Este cheiro a hospital aguça-nos a doença, faz-nos cair ainda mais.  De vez em quando abrem a janela, é como se abrissem o mundo.  Nunca pensei que os cheiros nos levassem tão longe.  À hora de almoço o cheiro a churrasco leva-me às memórias de infância.  Lembro-me da festa que era ir à Feira Popular com os meus pais, aquele ritual anual, andar nos carrosseis e comer sardinhas e frango assado...  Gostasse eu tanto de sardinhas como gosto do cheiro e deveria comer uma dúzia.  Acho que nunca houve nada que não gostasse e que cheirasse bem.  Exceto sardinhas... 
Gosto deste cheiro a rua em dias de chuva, aquele cheiro que fica quando o dia fica limpo.  Não limpo de nuvens, mas realmente limpo, o cheiro a um dia lavado, a fresco.  O cheiro da relva do jardim acabada de cortar, as correrias infantis atrás de uma bola, o comer bolos comprados a uma qualquer senhora, sem controle sanitário nem exigências fúteis, o chegar a casa com as calças verdes das defesas e das quedas...  
Lembro-me de quando era pequeno saber quem tinha entrado no prédio pelo cheiro a perfume que ficava nas escadas, as mesmas escadas de madeira que hoje já perderam parte do seu esplendor de outros tempos, um esplendor ajudado pela cera à moda antiga, aquele cheiro forte que ficava na garganta.
Por mais ou menos fútil que tenha sido esta nossa existência, acabamos sempre por levar qualquer coisa.  Pelo menos é o que dizem, embora confesso que ainda não sei para onde vou, ou sequer se haverá sítio para onde ir.  Sei que levo as memórias, as visões, os cheiros de uma vida.  As recordações de pessoas.  Posso não ter sido a melhor das pessoas, mas raios, ninguém o é.  Falamos demais, falamos demenos.  Amei como soube, odiei como quis.  Deixei coisas por dizer, por contar, levo comigo segredos e arrependimentos.  Haverá concerteza desculpas a pedir, mas é mesmo assim o balanço da vida
O tempo passa, escasseia.  O sino de uma qualquer igreja acabou de dar as horas, não sei quantas, não lhe contei os passos. Uma voz condescendente diz que alguém me trouxe flores. Flores levam-se aos mortos!  Não sabem esperar? Abutres não trazem flores!  Pergunto o que são, não lhe reconheço o cheiro.  São cravos, dizem-me.  Uma calma invade-me o espírito e fechando os olhos murmuro:  
-  Os meus cravos não cheiram assim...  E são de papel, não morrem como eu...

(*) Lana Del Rey in Born to Die

terça-feira, 30 de outubro de 2012

"I'm bringin' it down this hammer i've got" (*)

Um bloqueio de escrita levou a escrever sobre isso mesmo.  Parece um muro que impede que as ideias circulam para jusante.  
Parece que todos estamos formatados para isso.  Um muro é um bloqueio, uma divisória, um impedimento, fisíco ou não.  Quantas vezes tivémos muros na mente que nos impediram de fazer determinadas coisas.  Impomos os limites com muros, ainda que a altura varie...
Coisa estranha esta.  Mas depois pensei, porque raio um muro tem de ser um bloqueio?  Lá está o bloqueio que transforma em tacanha a mente humana.  O muro de Berlim foi em tempos um bloqueio, transformado mais tarde num símbolo da queda de uma ideologia política.  Sempre se associou a queda do comunismo à queda do muro. The Wall, por exemplo, é um dos mais conhecidos álbuns dos Pink Floyd e, inclusivé uma ópera rock escrita por Roger Waters.  Pode também ser uma tela onde, com mais ou menos mestria, se faz street art, ou até onde se pintavam autênticos murais revolucionários.  
Uma nota para o estimado leitor: a linha que separa o grafitti da street art mede-se pela frase que é proferida.  Olha que fixe que está, é street art e olha que bela merda, é graffiti de subúrbio.  Pai, o que é a APU e quem é o Cunhal, não é mais que um muro que não vê tinta há seguramente 25 anos...
Que seria dos milhões de judeus sem muro das lamentações?  Que seria de Lewis Carrol se não houvesse um muro para Humpty-Dumpty? 
Até um dos dos grandes mitos da vox populi tem um muro.  Diz-se que se consegue ver da Lua a grande muralha da China.  Ora, se até um astronauta chinês já confirmou que não se vê da ISS, muito menos se verá do satélite natural.  Mas não interessa, fica o mito.  Com um muro.

(*) in Bringin' it Down, Judge

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

"To be safe, we lose our chance of ever knowing what's around the riverbend" (*)

Uma das quatro virtudes cardinais com que fomos presenteados aquando da nossa criação é a prudência.  A importância da prudência é tal que a mitologia grega dedicou-lhe uma deusa, e não uma deusa qualquer, ela é Métis, primeira mulher de Zeus, e por consequinte uma deusa titânica.  Findo este interlúdio que não foi mais que o mais puro serviço público a que este blog também se dedica, vamos então ao cerne da questão...
A vida deverá ser levada com cuidado, é demasiado longa para arriscarmos em imprudências que nos poderão custar o pleno gozo deste tempo que andamos por aqui.
E amar?  Poderemos amar verdadeiramente se formos prudentes?  Se a opinião deste vosso estimado escriba contar para alguma coisa, acho que não.  O amor tem algo de imprudente, algo de risco que não pode ser calculado.  Miguel Esteves Cardoso escreveu um dia que a vida é simples e fácil de perder, mas o amor é fodido.  É a isto que me refiro, à complexidade do amor que requer imprudência.  
Estimado leitor (e leitora), aconselho a amar imprudentemente.  Só assim poderão dizer a alguém que a amaram a vida inteira.  Ainda que não tenha passado a vida inteira...

(*) in Just Around the Riverbend,  Alan Menken and Stephen Schwartz, BSO Pocahontas

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

"I wanna be just as close as your Holy Ghost is" (*)


Desacelerou, inclinou-se sobre o lado vazio do passageiro e semicerrou os olhos para ver melhor.
Era ela, não tinha a menor dúvida, reconhecer-lhe-ía a figura esguia em qualquer lugar e em qualquer altura.
Estacionou no primeiro lugar que encontrou, saiu do carro já com o coração acelerado. Correu.
- Lisa? - prerguntou ainda incrédulo.
Ela despertou do pensamento ao mesmo tempo que sacudiu o corpo involuntariamente, denunciando o susto.
- B... Bernardo?! - gaguejou incrédula.
- Sim, olá. - e sorriu abertamente.
- O que fazes aqui? - certificava-se que não sonhava
- Estava só de passagem. Nem acredito que te vejo aqui.
- Nem eu. - e não conseguia acreditar.
No momento seguinte o tempo pareceu parar, nada conseguiram dizer, olharam-se intensamente, reconhecendo-se. Nutriram-se da presença um do outro. E o silêncio prolongado, de tão preenchido, nem chegou a ser constrangedor.
- Podemos tomar um café? Tens tempo? - ele pediu finalmente.
- Claro que sim.
Um pequeno café despejava uma pequeníssima esplanada com apenas duas mesas sob um pequeno alpendre de madeira para o lado dos carris de ferro. As sardinheiras vermelhas contrastavam com o castanho escuro da estrutura. Ao mesmo tempo  que chamava à atenção pela beleza, era também um espaço discreto  e inserido no caracter do lugar.
- Há tanto tempo... - ele murmurou
Ela sorriu.
- Estava a pensar em ti - deixou por fim escapar a medo.
Ele iluminou-se, sentiu o coração bater forte e teve que inspirar fundo. Uma jovem de avental branco aproximou-se deles com uma caneta e papel na mão.
Pediram dois cafés.
- Como estás? - perguntou genuino no seu interesse sem conseguir tirar os olhos dela.
- Bem, e tu? - resumiu.
- Também. Pensavas em mim? - não se conteve.
- Costumávamos vir aqui!... - ela baixou o olhar meio embaraçada.
Ele olhou-lhe para as mãos
- Já vi que casaste.
- Sim.
- Filhos?
- Não, filhos não. - retirou a aliança e ficou a brincar com ela entre os dedos.
No sitio descoberto pôde ver uma pequena tatuagem muita discreta imitando uma anel.
A expressão na cara dele fê-la desculpar-se:
- Às vezes magoa-me - mentiu de certo modo.
- O quê?
- A aliança, às vezes magoa-me!
- Ah, pensei que fosse a tatuagem, está a pertada?
O café chegou. Ele colocou uma nota de 5€ no tabuleiro. A empregada fez o troco e foi-se embora.
- Casaste? - perguntou ela sem lhe olhar para as mãos. Sempre adorara as mãos dele, de linhas perfeitas e de um toque suave que não voltara a encontrar em mais homem nenhum.
- Sim, e também não tenho filhos. - acrescentou.
Ambos levaram a chávena à boca.
- O que fazes aqui Lisa? - perguntou inclinando a cabeça para ficar pertodo ouvido dela. Falou baixo.
- Vives aqui? - perguntou ignorando-o.
- Não, e tu também não. - Adivinhou
Um carro apitou e ele assustou-se
- Às vezes passo aqui, tenho boas memórias e sinto-me muito bem neste lugar - confessou olhando-o.
- Tenho saudades desse tempo - respondeu com ar sonhador.
- Passaram muitos anos mas este sítio está sempre na mesma, até as sensações que nos provoca. Gosto sempre de vir aqui, parece que volto àquela idade.
- É um lugar especial.
- Apaixonámo-nos por este sítio - disse ela com um sorriso.
- Apaixonámo-nos um pelo outro - disse ele um pouco para a provocar, queria falar disso. Ela não o encarou.
Beberam mais um pouco de café. Nenhum deles tinha o hábito de emborcar o café de uma vez.
Ela colocou a aliança de novo num gesto reflexo. Retirava-a e voltava a colocar.
- Estás nervosa?
- Não, desculpa, tenho este hábito, admito que possa parecer irritante... - afastou as mãos uma da outra e encolheu os ombros a desculpar-se.
- Não, não é irritante, só parece que não estás tranquila.
- Mas estou, é mesmo uma mania. Às vezes incomoda-me, outras tenho calor, os dedos parece que incham.- não mentiu totalmente, de tanto a tirar apanhou o hábito.
- Porque não a tiras?
- Estou sempre a tirá-la. - Ela riu
Ele foi apanhado de surpresa, aquele sorriso que tantas vezes foi seu e para si, estava ali, perfeito, inalterado. O tempo voltara mesmo para trás.
- Tira-a mesmo, guarda-a, não a uses! - Ele sugeriu com uma qualquer estranha esperança.
- Ah, não, não posso.
- E se disseres que a perdeste? - forçou
- Não... não sei se tenho que dizer alguma coisa, não é isso. Casei e a aliança é o simbolo da união, não pensei tirá-la...
Desiludido sem perceber bem porquê, não disse nada.
- Às vezes tiro a aliança, é como se voltasse atrás no tempo, ou imagino um outro futuro. Olho para a mão e imagino, só isso. - confessou finalmente.
- Ainda tenho a nossa. - expôs a mão nua e no dedo anelar uma tatuagem igual à dela.
Ela colocou a mão esquerda junto da dele. As mãos tocaram-se e eles não as retiraram.
- Tenho saudades tuas! - arriscou ele ao mesmo tempo que descobria isso mesmo.
- Tenho saudades nossas! - completou ela. 
Não percebeu se ela recuava de algo mas sentiu medo. Compreendeu naquele momento que queria agarrá-la, sair dali, gritar, fazer qualquer coisa.
Levantou-se afastando a cadeira com a parte de trás das pernas.
- Vem - estendeu-lhe a mão, morria de medo que ela não aceitasse mas se não o fizesse cairia ali mesmo.
- Onde? - Olhou-o permanecendo sentada.
- Não interessa, vamos dar uma volta, percorrer os trilhos do comboio como antigamente - disse cheio de esperança.
Ela levantou-se, mantinha as mãos agarradas uma à outra com força.
Ele permanecia de braço estendido.
- Dá-me a tua mão - pediu com calma - eu sei que queres. 
Ela ali de pé estática deixou cair uma lágrima. 
- Lisa, dá-me a tua mão, liberta-te. Não achas que mereces?
- Mereço o quê? - Ela queria certezas.
- Liberta-te dessa culpa absurda, sentes a culpa antes de tudo o resto. Mereces ser feliz.
Ela chorou, ele abraçou-a, sentiu-lhe o aroma doce que sentira junto a si durante anos, mesmo sem a presença física, o aroma permanecia. Sentiu-lhe o corpo frágil que tanta falta lhe fez. Fechou os olhos. Inspirou-a.
- E como é que eu sou feliz? - rendeu-se
- Tu sabes do mesmo modo que eu sei. - disse-lhe cheio de certezas.

(*) in Bed of Roses, Bon Jovi

terça-feira, 16 de outubro de 2012

"And the children keep on singing, singing" (*)

Sempre que há qualquer celeuma com uma Lei, imputa-se a culpa para uma entidade omnisciente chamada de Legislador, talvez para manter no anonimato alguns dos nomes participantes ou talvez para nos dar a ideia de que esse Legislador é assim uma espécie de Grande Arquiteto do Universo, que escreve as leis com a rigidez do esquadro e do compasso.  Temendo que esta última hipótese abra azo a teorias maçónicas, vou-me ficar pela primeira.
Quis o Legislador que este sinal de trânsito fosse associado a crianças.  Até aí percebe-se pelo desenho de dois petizes parecendo correr alegres (note o estimado leitor que esta é a versão mais antiga, pois a moderna já os mostra parados e muito menos contentes), mas há uma coisa que eu nunca percebi...  Foi-nos ensinado que os sinais triangulares são de perigo, são um aviso de qualquer coisa que possa constituir ameaça para o condutor.  Há o perigo de explosão, de atravessamento de passagem de nível, de caça grossa ou até de atravessamento de animais na via.  Sabemos que às vezes as crianças têm a gentileza de um comboio e o silêncio de uma explosão, mas era necessário rotulá-las de perigosas??  
Poderá o estimado leitor alegar que o sinal indica apenas a aproximação de escolas ou de sítios frequentados por crianças.  Então porque é que quando nos aproximamos de um hospital temos um sinal de informação que nos informa disso mesmo?  Não deveríamos ter um sinal de perigo com dois seres doentes, muito ao estilo de Resident Evil?  Afinal estamos a passar perto de um viveiro de bacilos, vírus e bactérias, e isso sim, é perigoso!
Ainda hoje não entendo porque háo-de ser um perigo os inocentes petizes.  
Tenho para mim que o Legislador teve ajuda.  Agora sei onde esteve a verdadeira governanta dos Von Trapp enquanto a Maria os levava a cantar...

(*) in Children, VV Brown

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

"The battle's almost won And we're only several miles from the sun." (*)

Diz a vox populi que o Sol quando nasce é para todos.  E pode marcar as vidas de milhões de pessoas, que o digam por exemplo 3 pastores que, com medo de levarem uns açoites dos pais por se distraírem com as horas dizem que viram o sol a bailar.  Isto já se passou há uns bons anos e ainda hoje se fala nisso, e creio veementemente que o falatório sobre esse tema continuará. 
As férias grandes, quando eram verdadeiramente grandes, eram todas acompanhadas por Sol.  Por dias de calor fantásticos passados na praia ou no campo conforme os destinos de cada um.  Escaldões e peixe-aranha fazem certamente parte das memórias. 
E depois temos o pôr-do-sol...  A par da aurora, o final de dia deverá ser dos mais grandiosos espetáculos que a natureza nos pode dar.  Sempre com o mesmo ator, mas não importando o cenário, a beleza e o impacto do momento é tal que não haverá dois pôr-do-sol iguais.  Não haverá na natureza e não haverá certamente para nós.  Corrigir-me-á o estimado leitor se eu estiver errado, mas duvido que haja alguém que não tenha o seu pôr-do-sol na sua vida.  Aquele instante mágico que, quer pelo sítio quer pela companhia tornam inefável e inolvidável o momento.  Ou pelos acontecimentos.  Tenho para mim que a coca-cola pode tornar um pôr-do-sol inesquecível, aliás, a coca-cola altera tudo: ninguém diria que coca-cola com rum se tornaria no símbolo de uma revolução.
Quando, em 1942, Humphrey Bogart do alto da sua frieza de galã duro, muito antes do icónico Steven Seagal, responde a Ingrid Bergman dizendo-lhe sempre terão Paris, estará por certo a dizer uma das mais marcante frases românticas da 7ª arte. 
Podemos nem todos ter Paris, mas certamente que todos temos um pôr-do-sol...

(*) in The Sun, Maroon 5

A natureza e a solidão

 
[Ano de 2013,  Fevereiro 20]
A alteração foi drástica, primeiro a terra tremeu, foram vários os terramotos de diferentes graus. Depois veio a água, começou com as ondas trazidas pela força de deslocação das placas, foram muitas durante vários dias, e por fim, a humidade permanente que se instalou, o sol quase não se vê embora haja luz suficiente para viver mas a pressão que se libertou do interior da terra, formou uma neblina que não desaparece. Chuva propriamente dita não há.
A água pouco desceu, o mar invadiu a terra e assim tem permanecido, receio que novos mapas ter-se-ão que se redesenhar.
Não se vê ninguém, muitos terão morrido certamnte, não há electricidade logo não há comunicações.
Até onde a neblina deixa ver, percebem-se as ruinas de algumas construções mais altas. Pouco sobrou da violência da natureza.
Sei que um pouco para a esquerda fica a Serra, não a consigo ver mas sei que lá deve estar.
Não sei quanto tempo passou, pelas minhas marcas, cerca de dois meses. Devemos estar quase na primavera, será?
As águas acalmaram e vou tentar chegar à Serra com uma espécie de barco improvisado que construí com os destroços que as marés trazem. Preciso de encontrar alguém.
Do que consegui arranjar para comer, do supermercado que aqui havia, já não resta quase nada. Encontrei pacotes de sementes e algumas leguminosas que vou fazer germinar.
Há muito que me desfiz de tudo o que é eléctrico.
Comecei a compreender o tempo, já não sinto tanta insegurança ou abandono. Também não tenho dinheiro, palpita-me que não teria como torná-lo útil.
No início, nos dias de pânico, guardei tudo o que fosse paus e servisse para me defender. Agora já não tenho medo.
Não me conformo em ficar só pelo tempo que me resta, também não penso em repovoar o planeta, apenas me recuso a acreditar que não resta ninguém.
Aceitei o meu destino, será o que tiver que ser, não acreditava em nada disto mas também jácheguei à conclusão que somente um acontecimento a esta escala nos levaria de volta às raízes, à natureza.
Talvez algo assim já tenha acontecido antes, ouvi profetas, visionários dizerem que o ciclo da água viria, que o homem teria que viver de acordo com o planeta porque de toda as vezes que não o fez, o planeta destruiu-o, falaram da Atlântida.
Eu e outros rimos.
Escrevo este texto para deixar numa garrafa a flutuar nas águas, não sei se alguma vez será lido. Sei apenas que o mundo como era deixou de existir, para desepero de uns e esperança de outros.
Após todo este tempo começo a sentir alguma confiança e ânimo.
Parto, fica o registo.
Dois (?) meses após a profecia de 21 de Dezembro de 2012.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

"If you don't eat yer meat, you can't have any pudding..." (*)

Paremos!  Paremos todos.  Vamos deixar que o egoísmo tome conta de nós, vamos fazer o que sempre fizémos: arranjar soluções sim, mas não sem antes encontrar um culpado.  Vamos paralisar, sabendo que haverá sempre pessoas em piores condições que nós.  Vamos  todos ser sindicalistas de café e vamos deixar que alguém se prejudique por ter chegado atrasado ao trabalho, alguém que não tem a sorte de ter um sistema de saúde ou uma contratação coletiva, que seja subjugado pelo jugo capitalista.  Alguém que se viu em dificuldades para levar os filhos à escola numa tentativa quase inglória de lhes ensinar cidadania.  Vamos dar ouvidos aos sindicalistas, aqueles que não propoêm mas exigem, aqueles que, não esquecendo a teoria Marxista, também se deixaram aliciar pelos prazeres burgueses.  
Vamos ser reacionários, vamos todos sair à rua dar voz ao descontentamento!  Mas não nos peçam para vigiar, não nos peçam para escolher, para pôr uma simples cruz num quadrado.  Não nos peçam para homenagear e relembrar aqueles que tombaram durante a luta por esse simples ato.  Vamos todos sair em protesto e gritar aos ideais de Abril, mas só aos que nos convêm.  Vamos continuar a deixar que outros escolham por nós porque hoje o Benfica vai jogar e não me dava jeito nenhum ir votar.  Mas peçam-nos para dizer mal...  Mas sejamos prudentes.

in Another Brick in the Wall, Pink Floyd

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O Outono


O Outono chegou, não restam dúvidas, o Verão poderá ainda fazer uma ou outra tentativa de resistência mas, forças maiores não serão modestas nem comedidas e o Verão do nosso contentamento reduzir-se-á à sua (já) insignificância.
De há uns tempos para cá comecei a notar que me chateia cada vez mais o tempo de Inverno, não é a chuva, é  o tempo invernoso que nos torna latentes, que nos aborrece e acinzenta a alma. Que nos torna pesados  em roupagem, em cor e em vontade.
Mas, não nos adiantemos, é Outono, o vermelho acastanha-se e o amarelo doura-se, é bonito. A perfeita nostalgia instala-se, é forte o poder das cores sobre as emoções. E como que para nos agradar e compensar pelo que se segue, oferece-nos o cheiro da terra molhada e as castanhas assadas.
O Outono é como a Primavera, traz uma purificação intrínseca, vem lavar a intensidade, vem limpar o ar, vem revolver o solo para preparar um novo ciclo, as folhas vão tapar  e aconchegar as sementes para a noite de Inverno. Na Primavera esta camas protetoras transformadas em nutriente puro, darão o balanço para a explosão de vida que se seguirá.
Mas o Verão, esse já está,  desengane-se quem pensa que isto é só show-off, S. Pedro já colocou a visto na lista, tarefa cumprida.
O tempo mudou e veio para ficar, não é visita rápida. No Séc. XIX já se dizia nestes casos para a visita ir tirar o cavalo da chuva porque o assunto era demorado.
Eu já tirei o meu!

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

"If you dont love me, lie to me" (*)

Red tape, lápis azul, Miguel Relvas.  A censura sempre teve cores, no caso de Relvas é Cinzento Burro.  Pode não ser a mais apelativa das cores, mas é a que serve.  Sempre se falou na censura como uma entidade maléfica, qualquer coisa como uns óculos para quem não precisa de os ter: continua-se a ver, não se sabe é bem o quê.
Um dia destes descobri que a censura pode ser profilática.  Aliás, depois de a ver por este prisma estou convencido que é usada mais por profilaxia do que por remédio.  Quando se diz a alguém que não devia escrever isto ou dizer aquilo, porque isso poderá causar mal estar a alguém, estamos, ainda que indiretamente, a censurar a liberdade de expressão de terceiros.  E fazêmo-lo porquê? Para evitar problemas ou constrangimentos, para evitar que alguém fique aborrecido.  Não estamos a opinar ou a aconselhar, estamos a censurar, não vale a pena tentar encontrar um nome simpático.  É, de certa forma, a ténue linha que separa o mentir do omitir.  Omite-se para ser profilático, ás vezes mente-se pela mesma razão.
Pode o estimado leitor alegar que a censura nos regimes totalitários não tem nada de profilático. Permitam-me discordar.  Por muito mal que faça à população o desconhecimento dos fatos, defende esse mesmo regime mantendo a harmonia e o status quo.
Por essa razão a censura é como um preservativo:  Servem para ser profiláticos, não deixando de servir para nos f***r.  Mas, segundo Murphy, se uma coisa tiver hipótese de correr mal, ela correrá mal, a coisa às vezes não resulta, e em vez de profilaxia vemo-nos confrontados com cuidados intensivos.  A mentira, diz o povo, tem a perna curta.  Nesse caso, há que encontrar um bom ortopedista.

in Lie to me, Bon Jovi

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O fim do caminho


Não foi tanto a imagem do fim do trilho que a apanhou de surpresa, foi mais o facto de ser confrontada com o abandono a que o caminho fora votado.
Nada a teria feito pensar assim dez anos antes.
A história já não era nova, mas, quisera a vida, numa grande ironia brincar com dois seres que à partida poderiam ter tudo para a dita "união perfeita".
Conheceram-se ainda pequenos na escola, pelos 12 anos. Quando começaram a descobrir mais sobre os enlaces do amor e a perceber neles a vontade de se conhecerem melhor, Ana mudou de escola e de bairro. Sem internet ou redes sociais que lhes valesse, perderam-se um do outro.
A vida, traiçoeira, juntou-os na universidade. André trazia consigo um namoro de quase dois anos. Ana vivia ainda aquele amor irreal com ele. André percebeu.
Tornaram-se amigos.
Convicta de que André era feliz, Ana ensaiou a sorte com outra pessoa e, quando descobria  a medo pequenos passos felizes, André terminou a sua relação.
E assim se mantiveram por dez longos anos, sempre desencontrados
A amizade cresceu forte e profunda. Sem nunca desonrar nada nem ninguém, o amor manteve-se aquietado. Sempre que podiam, passavam tempo juntos, davam longos passeios e ficavam sentados no fim da estação a ver os comboios chegar e partir. Tinham longas conversas sobre tudo.
Naquele mesmo sitio fizeram uma promessa. Um dia menos bom, numa das últimas vezes que se viram, e porque a conversa para aí fluiu, prometeram um ao outro que se dentro de dez anos não estivessem felizes, se encontraríam ali mesmo, e viveriam finalmente uma vida adiada.
Escolheram partir.
Dez anos passaram e Ana, ali de pé olhava a linha e a estação. Os velhos bancos de madeira há muito que tinham desaparecido. Metade da estação ruira. Gatos vadios, lixo e restos de vidas eram ali deixados em forma de carcaças de eletrodomésticos, solas de sapatos e farrapos já sem cor definida. O que fora antes uma carruagem marcava agora o começo da lixeira.
O relógio marcava as 5 da tarde, Ana olhou em todas as direcções. Nada.
A hipótese de André ser hoje um homem feliz começava a tomar forma na sua cabeça mas ela afastava-a, dizia-se a si própria que ele estava atrasado. Na pior das hipóteses, esquecera-se! Ela procurá-lo-ía, por nada abdicaria dele outra vez.
Nada, nem um som, até o ar parecia parado.
Concentrada no que via, não percebeu que ao longe, no alto do monte outrora recortado para encaixar a estação, André observava-a.
O medo impedia-o de se aproximar, o medo da promessa, medo que ela tivesse mudado mais que ele, medo de experimentar. E assim mutilado na esperança, incapaz de se mexer, chorava. Amava-a há tanto tempo e esta promessa de felicidade, compreendera há alguns anos, era ao mesmo tempo a sua força motriz, impelindo-o a continuar e também o que lhe boicatava todas as tentativas de vida a que entretanto se entregara.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

"I've seen the bridge and the bridge is long" (*)

Perdoar-me-á o estimado leitor pelo post que se segue ser do tipo retrospetivo, mas sempre que vejo uma ponte me lembro de uma outra.  
No último ano da década de 80 do século passado, eu e uma amiga, companheira de várias milhas terrestres e emocionais (nota mental: dedicar um post às milhas emocionais e também à profilaxia da censura), tínhamos como hábito vir a pé da escola secundária onde estávamos a fazer o 12º ano, até Benfica.  Por alturas ali da Universidade Católica, erguia-se literalmente do chão, no meio de um mato mais ou menos selvagem, uma ponte.  Mas não era uma ponte qualquer.  Era uma ponte que ligava nada a coisa nenhuma, sem estrada que a atravessasse ou cruzasse.  Uns pilares de betão que nasciam do solo e misturando-se com a vegetação.  Acho que mesmo que quisessemos não conseguiríamos passar debaixo dela, pois a terra tocava no tabuleiro tornando a passagem impossível e deitando por terra o objetivo de uma ponte.
Os nossos caminhos entretanto mudaram e deixámos de passar por ali, até que anos mais tarde, e sem sequer estar a contar, voltei a passar exatamente no mesmo sítio.  A vegetação fora substituída pelo eixo Norte-Sul, e aquele pedaço de betão era agora, finalmente, uma ponte funcional.  Ligava os dois lados rasgados pela estrada e ao mesmo tempo permitia o trânsito fluir por baixo dela.
Por vezes encontramos coisas ou pessoas assim.  Estão lá, às vezes não se fazendo caso, aguardando a altura em que finalmente são úteis.  Claro que, daqui a vários anos, a ponte deixará de ser útil, e aquilo que hoje é imprescindível será descartável.  Mas, estimado leitor, não é assim que a vida passa?

(*) in The Bridge, Elton John


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A zona soberana


As obras de arte, as grandes descobertas, os feitos humanos nascem do esforço e dedicação de quem trabalhou para aí chegar. Outras, existirão por mero acaso ou mesmo até por alguma impossibilidade de atingir um fim.
 
Gosto de pensar que quem inventou o banco alto foi muito pela indecisão de se sentar ou ficar de pé.
Sentar custa, e mais ainda levantar e, com o andar da idade então, nem se fala. Mas, porque ficar de pé cansa, há que estacionar a bunda num qualquer espaço minimamente acolhedor e dar um descanso às pernas.
Esta  zona, sagrada de intenção(!) e de nome, é responsável por um sem fim de invenções, descobertas, histórias e até (quem sabe?) avanços tecnológicos.
Senão vejamos - a sanita -  a maior das invenções. Estaríamos ainda de cócoras atrás da moita, como de vez em quando ainda estamos mas, na sua maioria das vezes, quero eu dizer. Outra, as cuecas! As belas cuecas uma das mais sensuais invenções do homem, cada uma para a sua época.
Uma descoberta... assim de repente não me estou a lembrar de nada descoberto por causa do rabo de alguém mas, não tenho dúvidas que, tendo existido os cultos que existiram em torno do corpo da mulher, de certeza que algum Indiana Jones da realidade terá chegado a alguma solução arqueológica por analogia. Quanto aos avanços tecnológicos, talvez a NASA possa explicar que invenções dedicou às mais resguardadas partes astronautas (sim, porque elas também lá vão).
 
Mas histórias há muitas e as mais estranhas histórias da vida comum são aquelas que dão conta da inexistencia desta parte da anatomia. Até a Rainha de Inglaterra tem "nalgas", até a Rainha de Inglaterra usa cuecas (ou assim se espera), ou melhor, até a Madre Teresa tinha e usava a sua anatomia como todos a usamos... tabu?
Bom afasto-me do tema proposto pela imagem.
 
De qualquer forma, a finalidade de um banco, seja alto ou baixo, é receber com aconchego e estabilidade. Estar bem sentado é meio caminho andado para um bocado bem passado, para dar de caras com a preguiça sem receio de "falta de posição". O pior é a anatomia amassada na hora de ir embora.

"The lights are much brighter there" (*)

Entre ambos os filmes há uma década de diferença, mas contêm duas das cenas icónicas da 7ª arte que, julgo eu, o estimado leitor se lembrará.  Falo d'O Páteo das Cantigas e de Serenata à Chuva.  
Em 1952 Gene Kelly filmava essa tão famosa cena que dá o nome ao filme, em que canta e dança debaixo de um violento temporal capaz de atirar para a cama o comum dos mortais mais incautos.  Dez anos antes, n'O Páteo das Cantigas, já os portugueses eram os pioneiros em cenas de rua com Vasco Santana a dirigir-se para casa com um bebedeira, também ela, capaz de atirar para a cama o comum dos mortais mais incautos...
E perguntará o estimado leitor o que têm em comum estes dois filmes feitos em condições e décadas completamente diferentes.  Pois é muito simples.  Uma análise atenta fará saltar à vista o elemento comum às duas cenas (além da rua):  um candeeiro de iluminação pública!  Teriam estas duas cenas o mesmo impacto sem um candeeiro?  Se calhar não.  Da mesma forma que podemos nem dar conta dele, mas é o nosso companheiro de viagem pela noite.  Podemos achar que estamos sozinhos, mas tal qual naquela alameda ladeava de deuses que ladeava a entrada de Gizé, somos acompanhados por estes guardiões de ferro.  Firmes e hirtos.  Mas nada frios...


(*) in Downtown, Petula Clark

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Do amor e outros jogos


Oliver amava Aimar que amava Ricardo que amava outros três.
O Mister, homem sábio e ponderado informou-os dos perigos do amor plural, mas eles, simples homens cheios de mácula, defeitos e vícios, não lhe deram ouvidos.
Preocupado por este relacionamento afectar (não por afecto) a performance do grupo, o Mister dirigiu-se à cúpula na floresta cinzenta, para consultar o convénio da aliança.
O documento em Times New Roman arcaico, com algumas passagens a bold (e alguns erros ortográficos muito por culpa da dificuldade de perceber o novo AO), não deixava margem para dúvidas, certos tipos de convívio estavam estritamente proibidos pois podiam levar não só à falta de concentração como à possível chegada de conclusões prejudiciais a agentes, representantes, treinadores, sócios e em última instância à própria aliança. "Serão severamente punidos", podia ler-se.
O Mister levou as mãos à cabeça, a sua expressão mudou, o cabelo branco agora agarrado e puxado atrás deixava ver um semblante que raiava o pânico. Correu tresloucado, correu, correu, correu e gritou. O castigo "divino" estava eminente, pendia sobre eles.
E do alto um raio desceu e no ponto onde tocou gerou uma luz rosa tão forte que quem viu não mais voltou a ver. E como veio, se foi, sem deixar rasto ou pista sobre o que veio fazer.
E o Mister, transfigurado, rapou o cabelo, vestiu um fato de macaco e entrou no templo da cúpula da Aliança. Lá, de joelhos prometeu aumentar em 7% o contributo em troco de poder ficar para sempre junto dos seus rapazes.
Foi-lhe entregue uma lata de óleo e uma camurça, foi-lhe dito que afinasse os varões embutidos e os preprarasse para a próxima época.
O Mister saiu com algumas dúvidas, mas depois pensou, "assim eles não falam, não se tocam, não se influenciam, não há perigo, farão tudo o que eu quiser... posso manter as idas diárias ao cabeleireiro!" E sorriu feliz, esfregando as mãos à camurça.

Só tenho a dizer, em minha defesa, que não percebo nada de futebol! Não se nota pois não?

"You can't help yourself from fallin'" (*)

Dezembro de 2012.  Esqueçam as compras de Natal porque parece que o mundo vai acabar.  Rios de tinta e vários livros depois concluem que os Maias estavam certos, e que a 21 de Dezembro isto vai tudo pelos ares.  No outro dia o meu filho, temerário como é, perguntou-me se o mundo iria realmente acabar.  Eu, depois de uma pequena aula de historia das conquistas hispânicas e posterior dizimação dos Incas, Aztecas, Maias e outros que tais, perguntei-lhe:  Achas mesmo que se eles adivinhassem o futuro não saberiam que os Espanhois vinham lá e os matavam a todos?  Parece que aliviei os receios do rapaz com tal explicação lógica.
Estará portanto o estimado leitor descansado por saber de tal fato, e vai concerteza retomar as parcas compras de Natal, crise oblige, e comemorar mais um ano.  Poderá retomar, mas escusa de estar descansado.  O mundo não irá acabar agora, nem certamente em data a anunciar, e muito menos será desta a chegada do tão aguardado JC, mas nós iremos certamente acabar com o mundo.  Na ânsia do progresso e do bem estar, inconscientemente ou não, vamos lentamente consumindo o mundo e não pensando que nos estamos a auto destruir.  Não serão os Maias a predizer, nem um Apocalipse bíblico que nos matará.  O que nos mata é este estilo de vida, os CFC, os inseticidas.  O que nos mata é o progresso, os alimentos transgénicos, os medicamentos mal administrados.  E sim, o que também nos mata é mesmo o ar condicionado.

(*) in Livin' on the edge, Aerosmith

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Uma vida simples


Todos os dias, várias vezes por dia até, nos deparamos com situações que exigem de nós uma vontade ou força que simplesmente não está disponível e mesmo assim, porque a vida o exige, somos obrigados a agir.
Seria tão simples se todos tivéssemos um botão de start/stop, e imediatamente faríamos tudo aquilo que temos que fazer com a maior das facilidades, sem a vontade a interferir, sem o humor a permanecer...
Que simples seria a vida ao toque de um botão, "start" e a própria vida iniciar-se-ía. Sem dor , doença ou perda simplesmente com um stop tudo se resolveria.
A guerra, no mesmo toque, sem baixas. A vontade para a brincadeira, para a diversão, para o amor, tantas vezes adiada, à distancia de um "clic".
Mecanizado tudo é mais simples, a ficção científica "sonha" com máquinas que aprendem a pensar, aprendem a sentir e governam o mundo. O homem sonha com pensamentos e emoções que não interfiram, andamos todos ao contrário, não fosse a eterna insatisfação humana por querer o que não tem
Start/stop, é simples, é fácil, é rápido e funciona, não é para nós.

"Yeah I'm sorry, I can't afford a Ferrari..." (*)

O clipe está para o stationary como o menino que chora está para a arte.  Ambos são sobejamente conhecidos, ao contrário dos autores, esquecidos no silêncio do passado.  O clipe é sinal de attachment (ao contrário d'o menino, que é sinal de puro mau gosto), de qualquer coisa agarrada, anexada.  Este bocado de ferro dobrado podia ser invenção de portugueses:  é um autêntico canivete suiço do desenrascanço, tudo fica assim a modos que a funcionar com o uso de um clipe.  É a-peça-que-faz-a-função-da-peça que nos esquecemos de colocar porque estávamos demasiados distraídos a criar algo de grandioso. E mesmo em pleno século XXI, no auge da eletrónica e do desenvolvimento, o modesto clipe tem o seu lugar no palco...  Amanhã, dia 12, será anunciado o que para muitos é a Bimby dos telemóveis, o iPhone 5 (aka pisa-papeis).  Para os fanáticos, quem tem um iPhone tem tudo, tem o pináculo do desenvolvimento eletrónico e informático.  Para os outros, céticos como eu, chega a altura de perguntar:  o que seria dos donos do iPhone sem um clipe?...

(*)  in F*ck you, Cee Lo Green

Do cimo da escadaria


Subir, subir os degraus da escadaria social sempre foi o sonho do homem, porque daí virá supostamente uma imagem pública de grande sucesso e por conseguinte, ainda que não o admita, o dinheiro fácil - que é o que se quer.
Mas esta é a mais pequena escada da evolução, a evolução da mente controlada pelo ego e presa na mediocridade.
A verdadeira evolução faz-se ao nível da transformação pessoal, da auto-descoberta. Subir os degraus, sim, para percebermos e compreendermos os passos que melhor nos podem levar pelo caminho do conhecimento, da descoberta, da sabedoria, do sentido da vida. Sim, é apontar para as estrelas e é seguir o caminho da escada que sobe (porque tem dois sentidos).
Um ou dois degraus, não acontece num abrir e fechar de olhos, as melhores "coisas" conquistam-se com muito esforço para que não as tomemos por garantidas. Um ou dois degraus se nos esforçarmos e aplicarmos é o que nos é dado de cada vez.
Na escada da evolução social ascendemos para que olhem para nós, na da evolução pessoal, para conseguirmos ver os outros...
Detenho-me, um lance de escadas num pequeno Chalé, à primeira vista não parece mas, o aconchego da construção de madeira, o cuidado e o pormenor... Esta fotografia merecia  um post diferente , mas pronto, hoje deu-me p'ra isto.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

"Life's a journey, not a destination" (*)

Durante muitos anos, habituei-me a que Sete Rios (hoje Jardim Zoológico), fosse o terminus da linha do metropolitano, ainda antes das linhas terem nomes e cores.  Mais tarde, já adolescente, Colégio Militar-Luz passou a ser o terminal.  Acrescentava-se mais linha à viagem.  Se Sete Rios era grande, esta era enorme, tinha saídas para todo o lado, e até para o grande buraco no chão que é hoje o Colombo.  Nos dias de hoje, a linha de metro já não acaba ali, o horizonte é Amadora, e com projeção de prolongamento...
Perguntará o estimado leitor o que é que esta pequena viagem na história do transporte subterrâneo da capital terá a ver com o título deste post?  Muito simples.  O título, aliás, excerto da letra de uma música dos Aerosmith, leva-nos para a questão da vida.  Às vezes achamos que o terminal do que queremos fazer é ali, umas vezes porque achamos que o que fizémos já é suficientemente grande, outras apenas porque sim, porque achamos que alguém escolheu por nós.  Mas de repente, e quase de um dia para o outro, é dada a oportunidade de seguirmos caminho, de chegarmos onde tudo é maior, melhor e mais moderno que o anterior, fazendo-nos perguntar o porquê de termos parado se poderíamos ter seguido, e dando-nos a vontade e o alento de prolongar a nossa linha, com todos os recursos que temos ao nosso alcance.
Será esta a filosofia que se ganha à medida que a vida passa pela idade?  É bem capaz.    Não só a filosofia mas também a sabedoria, (empírica, porque assim deve ser), porque ninguém nasce ensinado.  Sendo assim, estimado leitor, mantenha a cabeça e os braços fora da janela e goze a viagem.  Pelo menos enquanto o bilhete estiver válido...

(*) in Amazing, Aerosmith


domingo, 1 de janeiro de 2012

Dois tons, quatro mãos.

Uma foto, um texto.  Assim nasce uma ideia.  Este blog pretende juntar uma imagem a um texto, mas de maneira diferente.  Duas pessoas, quatro mãos, não mãos que produzem em conjunto, mas sim que constroem um conjunto.  Duas mãos tiram a foto e duas escrevem sobre ela ou sobre o que ela inspirar, tornando ambas as coisas um só post, um só conjunto.

Sempre que possível, será escrito segundo o novo acordo ortográfico.  Parece que fica melhor...