Desacelerou, inclinou-se sobre o lado vazio do passageiro e semicerrou os olhos para ver melhor.
Era ela, não tinha a menor dúvida, reconhecer-lhe-ía a figura esguia em qualquer lugar e em qualquer altura.
Estacionou no primeiro lugar que encontrou, saiu do carro já com o coração acelerado. Correu.
- Lisa? - prerguntou ainda incrédulo.
Ela despertou do pensamento ao mesmo tempo que sacudiu o corpo involuntariamente, denunciando o susto.
- B... Bernardo?! - gaguejou incrédula.
- Sim, olá. - e sorriu abertamente.
- O que fazes aqui? - certificava-se que não sonhava
- Estava só de passagem. Nem acredito que te vejo aqui.
- Nem eu. - e não conseguia acreditar.
No momento seguinte o tempo pareceu parar, nada conseguiram dizer, olharam-se intensamente, reconhecendo-se. Nutriram-se da presença um do outro. E o silêncio prolongado, de tão preenchido, nem chegou a ser constrangedor.
- Podemos tomar um café? Tens tempo? - ele pediu finalmente.
- Claro que sim.
Um pequeno café despejava uma pequeníssima esplanada com apenas duas mesas sob um pequeno alpendre de madeira para o lado dos carris de ferro. As sardinheiras vermelhas contrastavam com o castanho escuro da estrutura. Ao mesmo tempo que chamava à atenção pela beleza, era também um espaço discreto e inserido no caracter do lugar.
- Há tanto tempo... - ele murmurou
Ela sorriu.
- Estava a pensar em ti - deixou por fim escapar a medo.
Ele iluminou-se, sentiu o coração bater forte e teve que inspirar fundo. Uma jovem de avental branco aproximou-se deles com uma caneta e papel na mão.
Pediram dois cafés.
- Como estás? - perguntou genuino no seu interesse sem conseguir tirar os olhos dela.
- Bem, e tu? - resumiu.
- Também. Pensavas em mim? - não se conteve.
- Costumávamos vir aqui!... - ela baixou o olhar meio embaraçada.
Ele olhou-lhe para as mãos
- Já vi que casaste.
- Sim.
- Filhos?
- Não, filhos não. - retirou a aliança e ficou a brincar com ela entre os dedos.
No sitio descoberto pôde ver uma pequena tatuagem muita discreta imitando uma anel.
A expressão na cara dele fê-la desculpar-se:
- Às vezes magoa-me - mentiu de certo modo.
- O quê?
- A aliança, às vezes magoa-me!
- Ah, pensei que fosse a tatuagem, está a pertada?
O café chegou. Ele colocou uma nota de 5€ no tabuleiro. A empregada fez o troco e foi-se embora.
- Casaste? - perguntou ela sem lhe olhar para as mãos. Sempre adorara as mãos dele, de linhas perfeitas e de um toque suave que não voltara a encontrar em mais homem nenhum.
- Sim, e também não tenho filhos. - acrescentou.
Ambos levaram a chávena à boca.
- O que fazes aqui Lisa? - perguntou inclinando a cabeça para ficar pertodo ouvido dela. Falou baixo.
- Vives aqui? - perguntou ignorando-o.
- Não, e tu também não. - Adivinhou
Um carro apitou e ele assustou-se
- Às vezes passo aqui, tenho boas memórias e sinto-me muito bem neste lugar - confessou olhando-o.
- Tenho saudades desse tempo - respondeu com ar sonhador.
- Passaram muitos anos mas este sítio está sempre na mesma, até as sensações que nos provoca. Gosto sempre de vir aqui, parece que volto àquela idade.
- É um lugar especial.
- Apaixonámo-nos por este sítio - disse ela com um sorriso.
- Apaixonámo-nos um pelo outro - disse ele um pouco para a provocar, queria falar disso. Ela não o encarou.
Beberam mais um pouco de café. Nenhum deles tinha o hábito de emborcar o café de uma vez.
Ela colocou a aliança de novo num gesto reflexo. Retirava-a e voltava a colocar.
- Estás nervosa?
- Não, desculpa, tenho este hábito, admito que possa parecer irritante... - afastou as mãos uma da outra e encolheu os ombros a desculpar-se.
- Não, não é irritante, só parece que não estás tranquila.
- Mas estou, é mesmo uma mania. Às vezes incomoda-me, outras tenho calor, os dedos parece que incham.- não mentiu totalmente, de tanto a tirar apanhou o hábito.
- Porque não a tiras?
- Estou sempre a tirá-la. - Ela riu
Ele foi apanhado de surpresa, aquele sorriso que tantas vezes foi seu e para si, estava ali, perfeito, inalterado. O tempo voltara mesmo para trás.
- Tira-a mesmo, guarda-a, não a uses! - Ele sugeriu com uma qualquer estranha esperança.
- Ah, não, não posso.
- E se disseres que a perdeste? - forçou
- Não... não sei se tenho que dizer alguma coisa, não é isso. Casei e a aliança é o simbolo da união, não pensei tirá-la...
Desiludido sem perceber bem porquê, não disse nada.
- Às vezes tiro a aliança, é como se voltasse atrás no tempo, ou imagino um outro futuro. Olho para a mão e imagino, só isso. - confessou finalmente.
- Ainda tenho a nossa. - expôs a mão nua e no dedo anelar uma tatuagem igual à dela.
Ela colocou a mão esquerda junto da dele. As mãos tocaram-se e eles não as retiraram.
- Tenho saudades tuas! - arriscou ele ao mesmo tempo que descobria isso mesmo.
- Tenho saudades nossas! - completou ela.
Não percebeu se ela recuava de algo mas sentiu medo. Compreendeu naquele momento que queria agarrá-la, sair dali, gritar, fazer qualquer coisa.
Levantou-se afastando a cadeira com a parte de trás das pernas.
- Vem - estendeu-lhe a mão, morria de medo que ela não aceitasse mas se não o fizesse cairia ali mesmo.
- Onde? - Olhou-o permanecendo sentada.
- Não interessa, vamos dar uma volta, percorrer os trilhos do comboio como antigamente - disse cheio de esperança.
Ela levantou-se, mantinha as mãos agarradas uma à outra com força.
Ele permanecia de braço estendido.
- Dá-me a tua mão - pediu com calma - eu sei que queres.
Ela ali de pé estática deixou cair uma lágrima.
- Lisa, dá-me a tua mão, liberta-te. Não achas que mereces?
- Mereço o quê? - Ela queria certezas.
- Liberta-te dessa culpa absurda, sentes a culpa antes de tudo o resto. Mereces ser feliz.
Ela chorou, ele abraçou-a, sentiu-lhe o aroma doce que sentira junto a si durante anos, mesmo sem a presença física, o aroma permanecia. Sentiu-lhe o corpo frágil que tanta falta lhe fez. Fechou os olhos. Inspirou-a.
- E como é que eu sou feliz? - rendeu-se
- Tu sabes do mesmo modo que eu sei. - disse-lhe cheio de certezas.
(*) in Bed of Roses, Bon Jovi