segunda-feira, 17 de setembro de 2012

"The lights are much brighter there" (*)

Entre ambos os filmes há uma década de diferença, mas contêm duas das cenas icónicas da 7ª arte que, julgo eu, o estimado leitor se lembrará.  Falo d'O Páteo das Cantigas e de Serenata à Chuva.  
Em 1952 Gene Kelly filmava essa tão famosa cena que dá o nome ao filme, em que canta e dança debaixo de um violento temporal capaz de atirar para a cama o comum dos mortais mais incautos.  Dez anos antes, n'O Páteo das Cantigas, já os portugueses eram os pioneiros em cenas de rua com Vasco Santana a dirigir-se para casa com um bebedeira, também ela, capaz de atirar para a cama o comum dos mortais mais incautos...
E perguntará o estimado leitor o que têm em comum estes dois filmes feitos em condições e décadas completamente diferentes.  Pois é muito simples.  Uma análise atenta fará saltar à vista o elemento comum às duas cenas (além da rua):  um candeeiro de iluminação pública!  Teriam estas duas cenas o mesmo impacto sem um candeeiro?  Se calhar não.  Da mesma forma que podemos nem dar conta dele, mas é o nosso companheiro de viagem pela noite.  Podemos achar que estamos sozinhos, mas tal qual naquela alameda ladeava de deuses que ladeava a entrada de Gizé, somos acompanhados por estes guardiões de ferro.  Firmes e hirtos.  Mas nada frios...


(*) in Downtown, Petula Clark

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Do amor e outros jogos


Oliver amava Aimar que amava Ricardo que amava outros três.
O Mister, homem sábio e ponderado informou-os dos perigos do amor plural, mas eles, simples homens cheios de mácula, defeitos e vícios, não lhe deram ouvidos.
Preocupado por este relacionamento afectar (não por afecto) a performance do grupo, o Mister dirigiu-se à cúpula na floresta cinzenta, para consultar o convénio da aliança.
O documento em Times New Roman arcaico, com algumas passagens a bold (e alguns erros ortográficos muito por culpa da dificuldade de perceber o novo AO), não deixava margem para dúvidas, certos tipos de convívio estavam estritamente proibidos pois podiam levar não só à falta de concentração como à possível chegada de conclusões prejudiciais a agentes, representantes, treinadores, sócios e em última instância à própria aliança. "Serão severamente punidos", podia ler-se.
O Mister levou as mãos à cabeça, a sua expressão mudou, o cabelo branco agora agarrado e puxado atrás deixava ver um semblante que raiava o pânico. Correu tresloucado, correu, correu, correu e gritou. O castigo "divino" estava eminente, pendia sobre eles.
E do alto um raio desceu e no ponto onde tocou gerou uma luz rosa tão forte que quem viu não mais voltou a ver. E como veio, se foi, sem deixar rasto ou pista sobre o que veio fazer.
E o Mister, transfigurado, rapou o cabelo, vestiu um fato de macaco e entrou no templo da cúpula da Aliança. Lá, de joelhos prometeu aumentar em 7% o contributo em troco de poder ficar para sempre junto dos seus rapazes.
Foi-lhe entregue uma lata de óleo e uma camurça, foi-lhe dito que afinasse os varões embutidos e os preprarasse para a próxima época.
O Mister saiu com algumas dúvidas, mas depois pensou, "assim eles não falam, não se tocam, não se influenciam, não há perigo, farão tudo o que eu quiser... posso manter as idas diárias ao cabeleireiro!" E sorriu feliz, esfregando as mãos à camurça.

Só tenho a dizer, em minha defesa, que não percebo nada de futebol! Não se nota pois não?

"You can't help yourself from fallin'" (*)

Dezembro de 2012.  Esqueçam as compras de Natal porque parece que o mundo vai acabar.  Rios de tinta e vários livros depois concluem que os Maias estavam certos, e que a 21 de Dezembro isto vai tudo pelos ares.  No outro dia o meu filho, temerário como é, perguntou-me se o mundo iria realmente acabar.  Eu, depois de uma pequena aula de historia das conquistas hispânicas e posterior dizimação dos Incas, Aztecas, Maias e outros que tais, perguntei-lhe:  Achas mesmo que se eles adivinhassem o futuro não saberiam que os Espanhois vinham lá e os matavam a todos?  Parece que aliviei os receios do rapaz com tal explicação lógica.
Estará portanto o estimado leitor descansado por saber de tal fato, e vai concerteza retomar as parcas compras de Natal, crise oblige, e comemorar mais um ano.  Poderá retomar, mas escusa de estar descansado.  O mundo não irá acabar agora, nem certamente em data a anunciar, e muito menos será desta a chegada do tão aguardado JC, mas nós iremos certamente acabar com o mundo.  Na ânsia do progresso e do bem estar, inconscientemente ou não, vamos lentamente consumindo o mundo e não pensando que nos estamos a auto destruir.  Não serão os Maias a predizer, nem um Apocalipse bíblico que nos matará.  O que nos mata é este estilo de vida, os CFC, os inseticidas.  O que nos mata é o progresso, os alimentos transgénicos, os medicamentos mal administrados.  E sim, o que também nos mata é mesmo o ar condicionado.

(*) in Livin' on the edge, Aerosmith

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Uma vida simples


Todos os dias, várias vezes por dia até, nos deparamos com situações que exigem de nós uma vontade ou força que simplesmente não está disponível e mesmo assim, porque a vida o exige, somos obrigados a agir.
Seria tão simples se todos tivéssemos um botão de start/stop, e imediatamente faríamos tudo aquilo que temos que fazer com a maior das facilidades, sem a vontade a interferir, sem o humor a permanecer...
Que simples seria a vida ao toque de um botão, "start" e a própria vida iniciar-se-ía. Sem dor , doença ou perda simplesmente com um stop tudo se resolveria.
A guerra, no mesmo toque, sem baixas. A vontade para a brincadeira, para a diversão, para o amor, tantas vezes adiada, à distancia de um "clic".
Mecanizado tudo é mais simples, a ficção científica "sonha" com máquinas que aprendem a pensar, aprendem a sentir e governam o mundo. O homem sonha com pensamentos e emoções que não interfiram, andamos todos ao contrário, não fosse a eterna insatisfação humana por querer o que não tem
Start/stop, é simples, é fácil, é rápido e funciona, não é para nós.

"Yeah I'm sorry, I can't afford a Ferrari..." (*)

O clipe está para o stationary como o menino que chora está para a arte.  Ambos são sobejamente conhecidos, ao contrário dos autores, esquecidos no silêncio do passado.  O clipe é sinal de attachment (ao contrário d'o menino, que é sinal de puro mau gosto), de qualquer coisa agarrada, anexada.  Este bocado de ferro dobrado podia ser invenção de portugueses:  é um autêntico canivete suiço do desenrascanço, tudo fica assim a modos que a funcionar com o uso de um clipe.  É a-peça-que-faz-a-função-da-peça que nos esquecemos de colocar porque estávamos demasiados distraídos a criar algo de grandioso. E mesmo em pleno século XXI, no auge da eletrónica e do desenvolvimento, o modesto clipe tem o seu lugar no palco...  Amanhã, dia 12, será anunciado o que para muitos é a Bimby dos telemóveis, o iPhone 5 (aka pisa-papeis).  Para os fanáticos, quem tem um iPhone tem tudo, tem o pináculo do desenvolvimento eletrónico e informático.  Para os outros, céticos como eu, chega a altura de perguntar:  o que seria dos donos do iPhone sem um clipe?...

(*)  in F*ck you, Cee Lo Green

Do cimo da escadaria


Subir, subir os degraus da escadaria social sempre foi o sonho do homem, porque daí virá supostamente uma imagem pública de grande sucesso e por conseguinte, ainda que não o admita, o dinheiro fácil - que é o que se quer.
Mas esta é a mais pequena escada da evolução, a evolução da mente controlada pelo ego e presa na mediocridade.
A verdadeira evolução faz-se ao nível da transformação pessoal, da auto-descoberta. Subir os degraus, sim, para percebermos e compreendermos os passos que melhor nos podem levar pelo caminho do conhecimento, da descoberta, da sabedoria, do sentido da vida. Sim, é apontar para as estrelas e é seguir o caminho da escada que sobe (porque tem dois sentidos).
Um ou dois degraus, não acontece num abrir e fechar de olhos, as melhores "coisas" conquistam-se com muito esforço para que não as tomemos por garantidas. Um ou dois degraus se nos esforçarmos e aplicarmos é o que nos é dado de cada vez.
Na escada da evolução social ascendemos para que olhem para nós, na da evolução pessoal, para conseguirmos ver os outros...
Detenho-me, um lance de escadas num pequeno Chalé, à primeira vista não parece mas, o aconchego da construção de madeira, o cuidado e o pormenor... Esta fotografia merecia  um post diferente , mas pronto, hoje deu-me p'ra isto.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

"Life's a journey, not a destination" (*)

Durante muitos anos, habituei-me a que Sete Rios (hoje Jardim Zoológico), fosse o terminus da linha do metropolitano, ainda antes das linhas terem nomes e cores.  Mais tarde, já adolescente, Colégio Militar-Luz passou a ser o terminal.  Acrescentava-se mais linha à viagem.  Se Sete Rios era grande, esta era enorme, tinha saídas para todo o lado, e até para o grande buraco no chão que é hoje o Colombo.  Nos dias de hoje, a linha de metro já não acaba ali, o horizonte é Amadora, e com projeção de prolongamento...
Perguntará o estimado leitor o que é que esta pequena viagem na história do transporte subterrâneo da capital terá a ver com o título deste post?  Muito simples.  O título, aliás, excerto da letra de uma música dos Aerosmith, leva-nos para a questão da vida.  Às vezes achamos que o terminal do que queremos fazer é ali, umas vezes porque achamos que o que fizémos já é suficientemente grande, outras apenas porque sim, porque achamos que alguém escolheu por nós.  Mas de repente, e quase de um dia para o outro, é dada a oportunidade de seguirmos caminho, de chegarmos onde tudo é maior, melhor e mais moderno que o anterior, fazendo-nos perguntar o porquê de termos parado se poderíamos ter seguido, e dando-nos a vontade e o alento de prolongar a nossa linha, com todos os recursos que temos ao nosso alcance.
Será esta a filosofia que se ganha à medida que a vida passa pela idade?  É bem capaz.    Não só a filosofia mas também a sabedoria, (empírica, porque assim deve ser), porque ninguém nasce ensinado.  Sendo assim, estimado leitor, mantenha a cabeça e os braços fora da janela e goze a viagem.  Pelo menos enquanto o bilhete estiver válido...

(*) in Amazing, Aerosmith