sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A natureza e a solidão

 
[Ano de 2013,  Fevereiro 20]
A alteração foi drástica, primeiro a terra tremeu, foram vários os terramotos de diferentes graus. Depois veio a água, começou com as ondas trazidas pela força de deslocação das placas, foram muitas durante vários dias, e por fim, a humidade permanente que se instalou, o sol quase não se vê embora haja luz suficiente para viver mas a pressão que se libertou do interior da terra, formou uma neblina que não desaparece. Chuva propriamente dita não há.
A água pouco desceu, o mar invadiu a terra e assim tem permanecido, receio que novos mapas ter-se-ão que se redesenhar.
Não se vê ninguém, muitos terão morrido certamnte, não há electricidade logo não há comunicações.
Até onde a neblina deixa ver, percebem-se as ruinas de algumas construções mais altas. Pouco sobrou da violência da natureza.
Sei que um pouco para a esquerda fica a Serra, não a consigo ver mas sei que lá deve estar.
Não sei quanto tempo passou, pelas minhas marcas, cerca de dois meses. Devemos estar quase na primavera, será?
As águas acalmaram e vou tentar chegar à Serra com uma espécie de barco improvisado que construí com os destroços que as marés trazem. Preciso de encontrar alguém.
Do que consegui arranjar para comer, do supermercado que aqui havia, já não resta quase nada. Encontrei pacotes de sementes e algumas leguminosas que vou fazer germinar.
Há muito que me desfiz de tudo o que é eléctrico.
Comecei a compreender o tempo, já não sinto tanta insegurança ou abandono. Também não tenho dinheiro, palpita-me que não teria como torná-lo útil.
No início, nos dias de pânico, guardei tudo o que fosse paus e servisse para me defender. Agora já não tenho medo.
Não me conformo em ficar só pelo tempo que me resta, também não penso em repovoar o planeta, apenas me recuso a acreditar que não resta ninguém.
Aceitei o meu destino, será o que tiver que ser, não acreditava em nada disto mas também jácheguei à conclusão que somente um acontecimento a esta escala nos levaria de volta às raízes, à natureza.
Talvez algo assim já tenha acontecido antes, ouvi profetas, visionários dizerem que o ciclo da água viria, que o homem teria que viver de acordo com o planeta porque de toda as vezes que não o fez, o planeta destruiu-o, falaram da Atlântida.
Eu e outros rimos.
Escrevo este texto para deixar numa garrafa a flutuar nas águas, não sei se alguma vez será lido. Sei apenas que o mundo como era deixou de existir, para desepero de uns e esperança de outros.
Após todo este tempo começo a sentir alguma confiança e ânimo.
Parto, fica o registo.
Dois (?) meses após a profecia de 21 de Dezembro de 2012.

1 comentário: