sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O Outono


O Outono chegou, não restam dúvidas, o Verão poderá ainda fazer uma ou outra tentativa de resistência mas, forças maiores não serão modestas nem comedidas e o Verão do nosso contentamento reduzir-se-á à sua (já) insignificância.
De há uns tempos para cá comecei a notar que me chateia cada vez mais o tempo de Inverno, não é a chuva, é  o tempo invernoso que nos torna latentes, que nos aborrece e acinzenta a alma. Que nos torna pesados  em roupagem, em cor e em vontade.
Mas, não nos adiantemos, é Outono, o vermelho acastanha-se e o amarelo doura-se, é bonito. A perfeita nostalgia instala-se, é forte o poder das cores sobre as emoções. E como que para nos agradar e compensar pelo que se segue, oferece-nos o cheiro da terra molhada e as castanhas assadas.
O Outono é como a Primavera, traz uma purificação intrínseca, vem lavar a intensidade, vem limpar o ar, vem revolver o solo para preparar um novo ciclo, as folhas vão tapar  e aconchegar as sementes para a noite de Inverno. Na Primavera esta camas protetoras transformadas em nutriente puro, darão o balanço para a explosão de vida que se seguirá.
Mas o Verão, esse já está,  desengane-se quem pensa que isto é só show-off, S. Pedro já colocou a visto na lista, tarefa cumprida.
O tempo mudou e veio para ficar, não é visita rápida. No Séc. XIX já se dizia nestes casos para a visita ir tirar o cavalo da chuva porque o assunto era demorado.
Eu já tirei o meu!

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

"If you dont love me, lie to me" (*)

Red tape, lápis azul, Miguel Relvas.  A censura sempre teve cores, no caso de Relvas é Cinzento Burro.  Pode não ser a mais apelativa das cores, mas é a que serve.  Sempre se falou na censura como uma entidade maléfica, qualquer coisa como uns óculos para quem não precisa de os ter: continua-se a ver, não se sabe é bem o quê.
Um dia destes descobri que a censura pode ser profilática.  Aliás, depois de a ver por este prisma estou convencido que é usada mais por profilaxia do que por remédio.  Quando se diz a alguém que não devia escrever isto ou dizer aquilo, porque isso poderá causar mal estar a alguém, estamos, ainda que indiretamente, a censurar a liberdade de expressão de terceiros.  E fazêmo-lo porquê? Para evitar problemas ou constrangimentos, para evitar que alguém fique aborrecido.  Não estamos a opinar ou a aconselhar, estamos a censurar, não vale a pena tentar encontrar um nome simpático.  É, de certa forma, a ténue linha que separa o mentir do omitir.  Omite-se para ser profilático, ás vezes mente-se pela mesma razão.
Pode o estimado leitor alegar que a censura nos regimes totalitários não tem nada de profilático. Permitam-me discordar.  Por muito mal que faça à população o desconhecimento dos fatos, defende esse mesmo regime mantendo a harmonia e o status quo.
Por essa razão a censura é como um preservativo:  Servem para ser profiláticos, não deixando de servir para nos f***r.  Mas, segundo Murphy, se uma coisa tiver hipótese de correr mal, ela correrá mal, a coisa às vezes não resulta, e em vez de profilaxia vemo-nos confrontados com cuidados intensivos.  A mentira, diz o povo, tem a perna curta.  Nesse caso, há que encontrar um bom ortopedista.

in Lie to me, Bon Jovi

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O fim do caminho


Não foi tanto a imagem do fim do trilho que a apanhou de surpresa, foi mais o facto de ser confrontada com o abandono a que o caminho fora votado.
Nada a teria feito pensar assim dez anos antes.
A história já não era nova, mas, quisera a vida, numa grande ironia brincar com dois seres que à partida poderiam ter tudo para a dita "união perfeita".
Conheceram-se ainda pequenos na escola, pelos 12 anos. Quando começaram a descobrir mais sobre os enlaces do amor e a perceber neles a vontade de se conhecerem melhor, Ana mudou de escola e de bairro. Sem internet ou redes sociais que lhes valesse, perderam-se um do outro.
A vida, traiçoeira, juntou-os na universidade. André trazia consigo um namoro de quase dois anos. Ana vivia ainda aquele amor irreal com ele. André percebeu.
Tornaram-se amigos.
Convicta de que André era feliz, Ana ensaiou a sorte com outra pessoa e, quando descobria  a medo pequenos passos felizes, André terminou a sua relação.
E assim se mantiveram por dez longos anos, sempre desencontrados
A amizade cresceu forte e profunda. Sem nunca desonrar nada nem ninguém, o amor manteve-se aquietado. Sempre que podiam, passavam tempo juntos, davam longos passeios e ficavam sentados no fim da estação a ver os comboios chegar e partir. Tinham longas conversas sobre tudo.
Naquele mesmo sitio fizeram uma promessa. Um dia menos bom, numa das últimas vezes que se viram, e porque a conversa para aí fluiu, prometeram um ao outro que se dentro de dez anos não estivessem felizes, se encontraríam ali mesmo, e viveriam finalmente uma vida adiada.
Escolheram partir.
Dez anos passaram e Ana, ali de pé olhava a linha e a estação. Os velhos bancos de madeira há muito que tinham desaparecido. Metade da estação ruira. Gatos vadios, lixo e restos de vidas eram ali deixados em forma de carcaças de eletrodomésticos, solas de sapatos e farrapos já sem cor definida. O que fora antes uma carruagem marcava agora o começo da lixeira.
O relógio marcava as 5 da tarde, Ana olhou em todas as direcções. Nada.
A hipótese de André ser hoje um homem feliz começava a tomar forma na sua cabeça mas ela afastava-a, dizia-se a si própria que ele estava atrasado. Na pior das hipóteses, esquecera-se! Ela procurá-lo-ía, por nada abdicaria dele outra vez.
Nada, nem um som, até o ar parecia parado.
Concentrada no que via, não percebeu que ao longe, no alto do monte outrora recortado para encaixar a estação, André observava-a.
O medo impedia-o de se aproximar, o medo da promessa, medo que ela tivesse mudado mais que ele, medo de experimentar. E assim mutilado na esperança, incapaz de se mexer, chorava. Amava-a há tanto tempo e esta promessa de felicidade, compreendera há alguns anos, era ao mesmo tempo a sua força motriz, impelindo-o a continuar e também o que lhe boicatava todas as tentativas de vida a que entretanto se entregara.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

"I've seen the bridge and the bridge is long" (*)

Perdoar-me-á o estimado leitor pelo post que se segue ser do tipo retrospetivo, mas sempre que vejo uma ponte me lembro de uma outra.  
No último ano da década de 80 do século passado, eu e uma amiga, companheira de várias milhas terrestres e emocionais (nota mental: dedicar um post às milhas emocionais e também à profilaxia da censura), tínhamos como hábito vir a pé da escola secundária onde estávamos a fazer o 12º ano, até Benfica.  Por alturas ali da Universidade Católica, erguia-se literalmente do chão, no meio de um mato mais ou menos selvagem, uma ponte.  Mas não era uma ponte qualquer.  Era uma ponte que ligava nada a coisa nenhuma, sem estrada que a atravessasse ou cruzasse.  Uns pilares de betão que nasciam do solo e misturando-se com a vegetação.  Acho que mesmo que quisessemos não conseguiríamos passar debaixo dela, pois a terra tocava no tabuleiro tornando a passagem impossível e deitando por terra o objetivo de uma ponte.
Os nossos caminhos entretanto mudaram e deixámos de passar por ali, até que anos mais tarde, e sem sequer estar a contar, voltei a passar exatamente no mesmo sítio.  A vegetação fora substituída pelo eixo Norte-Sul, e aquele pedaço de betão era agora, finalmente, uma ponte funcional.  Ligava os dois lados rasgados pela estrada e ao mesmo tempo permitia o trânsito fluir por baixo dela.
Por vezes encontramos coisas ou pessoas assim.  Estão lá, às vezes não se fazendo caso, aguardando a altura em que finalmente são úteis.  Claro que, daqui a vários anos, a ponte deixará de ser útil, e aquilo que hoje é imprescindível será descartável.  Mas, estimado leitor, não é assim que a vida passa?

(*) in The Bridge, Elton John


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A zona soberana


As obras de arte, as grandes descobertas, os feitos humanos nascem do esforço e dedicação de quem trabalhou para aí chegar. Outras, existirão por mero acaso ou mesmo até por alguma impossibilidade de atingir um fim.
 
Gosto de pensar que quem inventou o banco alto foi muito pela indecisão de se sentar ou ficar de pé.
Sentar custa, e mais ainda levantar e, com o andar da idade então, nem se fala. Mas, porque ficar de pé cansa, há que estacionar a bunda num qualquer espaço minimamente acolhedor e dar um descanso às pernas.
Esta  zona, sagrada de intenção(!) e de nome, é responsável por um sem fim de invenções, descobertas, histórias e até (quem sabe?) avanços tecnológicos.
Senão vejamos - a sanita -  a maior das invenções. Estaríamos ainda de cócoras atrás da moita, como de vez em quando ainda estamos mas, na sua maioria das vezes, quero eu dizer. Outra, as cuecas! As belas cuecas uma das mais sensuais invenções do homem, cada uma para a sua época.
Uma descoberta... assim de repente não me estou a lembrar de nada descoberto por causa do rabo de alguém mas, não tenho dúvidas que, tendo existido os cultos que existiram em torno do corpo da mulher, de certeza que algum Indiana Jones da realidade terá chegado a alguma solução arqueológica por analogia. Quanto aos avanços tecnológicos, talvez a NASA possa explicar que invenções dedicou às mais resguardadas partes astronautas (sim, porque elas também lá vão).
 
Mas histórias há muitas e as mais estranhas histórias da vida comum são aquelas que dão conta da inexistencia desta parte da anatomia. Até a Rainha de Inglaterra tem "nalgas", até a Rainha de Inglaterra usa cuecas (ou assim se espera), ou melhor, até a Madre Teresa tinha e usava a sua anatomia como todos a usamos... tabu?
Bom afasto-me do tema proposto pela imagem.
 
De qualquer forma, a finalidade de um banco, seja alto ou baixo, é receber com aconchego e estabilidade. Estar bem sentado é meio caminho andado para um bocado bem passado, para dar de caras com a preguiça sem receio de "falta de posição". O pior é a anatomia amassada na hora de ir embora.

"The lights are much brighter there" (*)

Entre ambos os filmes há uma década de diferença, mas contêm duas das cenas icónicas da 7ª arte que, julgo eu, o estimado leitor se lembrará.  Falo d'O Páteo das Cantigas e de Serenata à Chuva.  
Em 1952 Gene Kelly filmava essa tão famosa cena que dá o nome ao filme, em que canta e dança debaixo de um violento temporal capaz de atirar para a cama o comum dos mortais mais incautos.  Dez anos antes, n'O Páteo das Cantigas, já os portugueses eram os pioneiros em cenas de rua com Vasco Santana a dirigir-se para casa com um bebedeira, também ela, capaz de atirar para a cama o comum dos mortais mais incautos...
E perguntará o estimado leitor o que têm em comum estes dois filmes feitos em condições e décadas completamente diferentes.  Pois é muito simples.  Uma análise atenta fará saltar à vista o elemento comum às duas cenas (além da rua):  um candeeiro de iluminação pública!  Teriam estas duas cenas o mesmo impacto sem um candeeiro?  Se calhar não.  Da mesma forma que podemos nem dar conta dele, mas é o nosso companheiro de viagem pela noite.  Podemos achar que estamos sozinhos, mas tal qual naquela alameda ladeava de deuses que ladeava a entrada de Gizé, somos acompanhados por estes guardiões de ferro.  Firmes e hirtos.  Mas nada frios...


(*) in Downtown, Petula Clark

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Do amor e outros jogos


Oliver amava Aimar que amava Ricardo que amava outros três.
O Mister, homem sábio e ponderado informou-os dos perigos do amor plural, mas eles, simples homens cheios de mácula, defeitos e vícios, não lhe deram ouvidos.
Preocupado por este relacionamento afectar (não por afecto) a performance do grupo, o Mister dirigiu-se à cúpula na floresta cinzenta, para consultar o convénio da aliança.
O documento em Times New Roman arcaico, com algumas passagens a bold (e alguns erros ortográficos muito por culpa da dificuldade de perceber o novo AO), não deixava margem para dúvidas, certos tipos de convívio estavam estritamente proibidos pois podiam levar não só à falta de concentração como à possível chegada de conclusões prejudiciais a agentes, representantes, treinadores, sócios e em última instância à própria aliança. "Serão severamente punidos", podia ler-se.
O Mister levou as mãos à cabeça, a sua expressão mudou, o cabelo branco agora agarrado e puxado atrás deixava ver um semblante que raiava o pânico. Correu tresloucado, correu, correu, correu e gritou. O castigo "divino" estava eminente, pendia sobre eles.
E do alto um raio desceu e no ponto onde tocou gerou uma luz rosa tão forte que quem viu não mais voltou a ver. E como veio, se foi, sem deixar rasto ou pista sobre o que veio fazer.
E o Mister, transfigurado, rapou o cabelo, vestiu um fato de macaco e entrou no templo da cúpula da Aliança. Lá, de joelhos prometeu aumentar em 7% o contributo em troco de poder ficar para sempre junto dos seus rapazes.
Foi-lhe entregue uma lata de óleo e uma camurça, foi-lhe dito que afinasse os varões embutidos e os preprarasse para a próxima época.
O Mister saiu com algumas dúvidas, mas depois pensou, "assim eles não falam, não se tocam, não se influenciam, não há perigo, farão tudo o que eu quiser... posso manter as idas diárias ao cabeleireiro!" E sorriu feliz, esfregando as mãos à camurça.

Só tenho a dizer, em minha defesa, que não percebo nada de futebol! Não se nota pois não?