Não foi tanto a imagem do fim do trilho que a apanhou de surpresa, foi mais o facto de ser confrontada com o abandono a que o caminho fora votado.
Nada a teria feito pensar assim dez anos antes.
A história já não era nova, mas, quisera a vida, numa grande ironia brincar com dois seres que à partida poderiam ter tudo para a dita "união perfeita".
Conheceram-se ainda pequenos na escola, pelos 12 anos. Quando começaram a descobrir mais sobre os enlaces do amor e a perceber neles a vontade de se conhecerem melhor, Ana mudou de escola e de bairro. Sem internet ou redes sociais que lhes valesse, perderam-se um do outro.
A vida, traiçoeira, juntou-os na universidade. André trazia consigo um namoro de quase dois anos. Ana vivia ainda aquele amor irreal com ele. André percebeu.
Tornaram-se amigos.
Convicta de que André era feliz, Ana ensaiou a sorte com outra pessoa e, quando descobria a medo pequenos passos felizes, André terminou a sua relação.
E assim se mantiveram por dez longos anos, sempre desencontrados
A amizade cresceu forte e profunda. Sem nunca desonrar nada nem ninguém, o amor manteve-se aquietado. Sempre que podiam, passavam tempo juntos, davam longos passeios e ficavam sentados no fim da estação a ver os comboios chegar e partir. Tinham longas conversas sobre tudo.
Naquele mesmo sitio fizeram uma promessa. Um dia menos bom, numa das últimas vezes que se viram, e porque a conversa para aí fluiu, prometeram um ao outro que se dentro de dez anos não estivessem felizes, se encontraríam ali mesmo, e viveriam finalmente uma vida adiada.
Escolheram partir.
Dez anos passaram e Ana, ali de pé olhava a linha e a estação. Os velhos bancos de madeira há muito que tinham desaparecido. Metade da estação ruira. Gatos vadios, lixo e restos de vidas eram ali deixados em forma de carcaças de eletrodomésticos, solas de sapatos e farrapos já sem cor definida. O que fora antes uma carruagem marcava agora o começo da lixeira.
O relógio marcava as 5 da tarde, Ana olhou em todas as direcções. Nada.
A hipótese de André ser hoje um homem feliz começava a tomar forma na sua cabeça mas ela afastava-a, dizia-se a si própria que ele estava atrasado. Na pior das hipóteses, esquecera-se! Ela procurá-lo-ía, por nada abdicaria dele outra vez.
Nada, nem um som, até o ar parecia parado.
Concentrada no que via, não percebeu que ao longe, no alto do monte outrora recortado para encaixar a estação, André observava-a.
O medo impedia-o de se aproximar, o medo da promessa, medo que ela tivesse mudado mais que ele, medo de experimentar. E assim mutilado na esperança, incapaz de se mexer, chorava. Amava-a há tanto tempo e esta promessa de felicidade, compreendera há alguns anos, era ao mesmo tempo a sua força motriz, impelindo-o a continuar e também o que lhe boicatava todas as tentativas de vida a que entretanto se entregara.

Isto merecia um "continua" :)
ResponderEliminarConcordo...
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