Perdoar-me-á o estimado leitor pelo post que se segue ser do tipo retrospetivo, mas sempre que vejo uma ponte me lembro de uma outra.
No último ano da década de 80 do século passado, eu e uma amiga, companheira de várias milhas terrestres e emocionais (nota mental: dedicar um post às milhas emocionais e também à profilaxia da censura), tínhamos como hábito vir a pé da escola secundária onde estávamos a fazer o 12º ano, até Benfica. Por alturas ali da Universidade Católica, erguia-se literalmente do chão, no meio de um mato mais ou menos selvagem, uma ponte. Mas não era uma ponte qualquer. Era uma ponte que ligava nada a coisa nenhuma, sem estrada que a atravessasse ou cruzasse. Uns pilares de betão que nasciam do solo e misturando-se com a vegetação. Acho que mesmo que quisessemos não conseguiríamos passar debaixo dela, pois a terra tocava no tabuleiro tornando a passagem impossível e deitando por terra o objetivo de uma ponte.
Os nossos caminhos entretanto mudaram e deixámos de passar por ali, até que anos mais tarde, e sem sequer estar a contar, voltei a passar exatamente no mesmo sítio. A vegetação fora substituída pelo eixo Norte-Sul, e aquele pedaço de betão era agora, finalmente, uma ponte funcional. Ligava os dois lados rasgados pela estrada e ao mesmo tempo permitia o trânsito fluir por baixo dela.
Por vezes encontramos coisas ou pessoas assim. Estão lá, às vezes não se fazendo caso, aguardando a altura em que finalmente são úteis. Claro que, daqui a vários anos, a ponte deixará de ser útil, e aquilo que hoje é imprescindível será descartável. Mas, estimado leitor, não é assim que a vida passa?
(*) in The Bridge, Elton John
(*) in The Bridge, Elton John
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